“No
tiro com arco no sentido tradicional, que o considera como arte e venera como herança do passado, o japonês não vê um desporto, mas sim, por estranho que pareça, uma prática ritual. Deste modo entende por “arte” do tiro com arco, não um exercício corporal destinado a treinar faculdades desportivas, mas sim uma capacidade que encontra as suas raízes em exercícios espirituais e cujo objectivo consiste num encontro espiritual: o arqueiro aponta para si mesmo, e daí pode resultar um encontro consigo.”
Eugen Herrigel, Zen e a Arte do Tiro com Arco, 1948, pp. 11-12
Após várias experiências mais ou menos conseguidas de aprender Tai Chi, comecei a praticar segundo a orientação do mestre Xuan Wu há pouco mais de um ano. Mais do que seguir um livro de regras e textos que ajudam sempre a compreender a prática, “sentir o Tai Chi”, mesmo que de forma incipiente, é algo altamente gratificante. Sei que por muito que pratique, existirão sempre aspectos a melhorar. O treino, sempre o treino, deve ser regular, na medida das possibilidades de cada um. A harmonia e o saber que transparece na prática por parte do mestre Xuan Wu servem de inspiração neste caminho tão pleno que é a descoberta do Tai Chi, que corre paralelo ao caminho do conhecimento de nós próprios.
Iniciei a prática de tai chi com o Mestre Xuan Wu, em 1999, no Jardim da Gulbenkian. Foi um processo de aprendizagem muito penoso, pois era totalmente descoordenada motora. Para agravar essa dificuldade, acontecia-me com frequência ficar tão encantada com a harmonia dos movimentos que o Mestre, pacientemente repetia, que me perdia e não conseguia memorizar nada do que tinha acabado de imitar. Sentia-me muito infeliz com a minha falta de jeito e estava convencida que um dia o Mestre me diria que era melhor eu desistir, por ser incapaz! Com o passar do tempo compreendi que isso nunca iria acontecer e comecei a acreditar que poderia vir a conseguir fazer tai chi e aprender as formas. Falei ao Mestre sobre este meu medo inicial o que o surpreendeu imensamente. O meu receio não fazia nenhum sentido pois a função do Mestre é ensinar, desde que o aluno queira aprender.